sobre a velocidade dos anos amorosos

há ainda eco na cidade
refratando a paisagem
entre os prédios e teu rosto.

ano passado acordaste tarde,
quiseste dormir de novo mas a urgência
do futuro te faz amanhecer cedo.

a imensidão dos segundos, dedos.
a poeira dos anos, pele.

perco-me na lentidão das horas imaginárias,
lembro o espaçar das memórias pontuais,
imagino-me no que é de teu conhecimento.

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conversa com “sobre a lentidão das horas imaginárias” da angélica.

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são paulo

são paulo, cidade que abriga todos que amo, amo-te de tabela.
teus caminhos, eu faço os meus. perco-me nas tristezas de quem tudo perde.
sorrio-te nas alegrias de quem tudo ganha. são paulo, um dia nado nos teus rios,
assim como dá paisagem aos meus choros contidos.
se um dia me reconhecer na rua, são paulo, acena
e será como se todos os que em mim habitam se tornassem caminhos também.

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mundos paralelos

para carol laguna

de todas você que acontecem na minha cabeça,
dou ouvidos somente àquela
que acha que mundos paralelos
são a graça de nós dois.

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Sobre Rosa de Pixinguinha e João de Barros

“Rosa, ótimo como caráter”.

In A Música Popular Brasileira na Vitrola de Mário de Andrade.

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doçura

como é doce a sua tensão
para dizer a coisa certa
quando parecem erradas
todas as formas de amar.

errar tanto quanto
o amor acertar.

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História

Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.

In: História de Cronópios e de Famas de Julio Cortázar.

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tabelas

para Patricia Nardelli e suas tabelas

organizar o dia é uma arte:
há tantas técnicas e engenharias
para encontrar o tempo
dos pequenos momentos
que acreditamos que podem
ser cheios de felicidades
entre tantos afazares.

quando fazer uma tabela
para encontrar
é uma escrita
da própria felicidade.

 

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Máquina de escrever

Mas de bobo tenho apenas a sorte, e sei que se eu for embora, esta Remington ficará petrificada sobre a mesa com esse ar de duplamente quietas que as coisas móveis têm quando não se movem.

In: As babas do Diabo de Julio Cortázar.

 

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investigações íntimas #08

imensidão é o momento em que ela hesita em dizer o que pode nos fazer mal.

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Saudade

– Acha possível que nosso pai não tenha saudade?
– Ora, ora: quem sabe o que é a saudade?
– Ele tem ou não tem?
– Saudade é esperar que a farinha se refaça em grão.

In: “Antes do nascer do mundo” de Mia Couto

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um poema chamado raccord

havia um poema,
chamava-se raccord.
era um intervalo,
uma respiração suspensa.
resumia a mudança
na reação contínua.
os anos passavam,
voltavam,
paravam.
frame perdido, fraturado,
a mulher atravessava a porta,
o sol, o dia;
o outono, o ano;
a vida, o século;
uma piscasda, a respiração
de tudo que não se pode ver
e que se dissipará no tempo.

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Antes do nascer do mundo

“–Neste mundo existem os vivos e os mortos. E existimos nós, os que não temos viagem.”

In: Antes do nascer do mundo de Mia Couto

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a mulher sem inclinação

há muito não vejo a mulher que não se inclina.
nas passadas rápidas das ruas transitórias,
aquela mulher deslocava a minha atenção,
desacelerava os meus passos
e evocava minha inquietude dos anos colegiais:
o que é a órbita senão uma queda constante?
a mulher sem inclinação estará em queda?

hoje é sua imagem em minha memória
(dois pés fincados,
joelhos que dobram o necessário
mãos encolhidas)
que às vezes me toma de susto na caminhada
para os compromissos quietos.

eu que vivo deslocando o centro de gravidade
por qualquer paisagem que me perde.

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Para fazer dançar uma garota de camisão

Pegar manjerona silvestre, óregano puro, tomilho silvestre, verbena, folhas de mirto junto com três folhas de nogueira e três caules pequenos de funcho, tudo colhido na noite de São João no mês de junho e antes do sol raiar. Devem ser secados à sombra, moidos e passados por uma fina peneira de seda, e quando se quiser executar este jogo agradável, basta soprar o pó no ar onde a garota estiver para que ela o respire, ou dar-lhe para tomar como se fosse pó de tabaco; o efeito se manifestará de imediato. Um famoso acrescenta que o efeito será ainda mais infalível se esta experiência travessa por realizadora num local onde ardam lamparinas alimentadas com gordura de lebre e de macho caprino jovem.

In: “A Volta ao dia em 80 mundos / tomo 1 – pg. 14″ de Julio Cortázar

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investigações íntimas #07

a densidade dos lábios é verso em suspensão da palavra.

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investigações íntimas #06

como ela pode espalhar tão pouca água lavando o rosto de forma tão perpendicular?

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investigações íntimas #05

a mão direita dela arruma o cabelo áreas da orelha para disfarçar a falta de jeito dos dedos pelo cigarro que largou.

 

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invesgitações íntimas #03

tatuagem na sola do pé que diz segredos.

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investigações íntimas #02

compartilhar significados através das pontas dos dedos.

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investigações íntimas #01

ela não deixa que o colchão se acostume comigo.

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