crepúsculo

passei muitos anos sem o hábito do anoitecer
entretido que estava nas labutas dos sem horas.
agora que volto para casa
quando a cidade crepuscular se revela
é fácil perceber as horas
se apossando e largando a minha pele e suas linhas.

todo dia envelheço de novo
nesse momento fugaz e isento
de preocupações seculares.

e o espelho do qual já havia desistido
se torna uma tela de cinema.

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Calçada

Da janela do coletivo vejo os ajustes finais de uma reforma que transformou uma casa de muros baixos em um clínica de medicina estética.

O muro foi derrubado. Outros foram erguidos. Mas a calçada ainda continua a mesma.

mãos

sempre fui o mais baixo da turma.
nas filas da pré-escola, eu ia a frente.
a professora pegava em minha mão
para guiar a fila de estudantes
até os seus afazeres.

as mãos quentes dela mantinham as minhas.
eu as tenho assim até hoje.

propósito

olho para o mundo.
o mundo não me olha.

pequena inclinação no chão:
o lápis corre para a esquerda
de um quarto que não tem direção.

um poema se escreve
na pequena gravidade
que faz o mundo correr.

 

mestres

pensando na vida, vejo três professoras que formaram meu caráter intelectual – se é que isso existe. a primeira foi no primário. ela soltou um palavrão ao questionar a progressão em ciclos que acabaria com a repetência. a segunda, no colegial, revelou-me a beleza e armadilha da linguagem. a terceira, na universidade, mostrou-me uma bibliografia pouco apreciada pelos acadêmicos, mas com novas ideias empolgantes.

deixei de ser um espírito livre aos poucos para me engajar a felicidade.

 

são paulo

um dia são paulo me pergunto: quem és tu que estás dentro de mim?
respondi: sou tuas entranhas.
ela: por que não sais de mim?
eu: faço visita eterna a todas outras entranhas que me fizeram a condição.
ela: que condição?
eu: a condição de fazer-te visceral.

parabéns, são paulo, cidade dos meus encantos e desencantos.

mensagem de ano novo

agradeço a todos que tornaram o meu ano bom. agradeço àqueles que o fizeram propositalmente e não. aqueles que fizeram bom sem que eu saiba ou que eu saiba mas não fazem ideia que o fizeram assim desejo sorte para nos encontrar, nos reconhecer e agradecer.

peço desculpas a todos para quem criei dificuldades; necessárias ou não. para aqueles que fiz mal, peço perdão que não foi minha intenção. para aqueles que viram intenção; veja como quiser porque provavelmente não me diz respeito.

daqueles que fiz bem, guardo boas lembranças. os bem feitios que pude lembrar guardarei como um presente de nosso encontro. os que não consigo lembrar, envie-me uma mensagem que farei um encontro novo.

para aqueles que não tive tempo, tento nestas linhas enviar uma mensagem de que não os esqueci embora o tempo tenha me vencido. ano que vem penso em novas estratégias para que nos reaproximemos para desenhar novos karmas.

para aqueles que amo, meu passado, meu presente e meu futuro.

a avó de elsa

– que olhos bonitos você tem…
– puxei minha avó.

a avó de elsa não se lembra quem é a avô de elsa. mas elsa lembra de todas as histórias de sua avó. cada marca do tempo em  sua pele traz as sementes do mundo para própria pele de elsa cheia de vontade de aventuras.

a avó de elsa foi a primeira mulher a habilitar-se a motocicleta, mas preferia uma vespa. usou as mãos para ganhar a vida cuidando das dores musculares dos outros. foi roubada de seu noivo e viajou pelo mundo – criou confusão já na confusa espanha e seus estrangeiros.

elsa sabe de tudo isso, mas o que sua avó sabe sobre ela?

elsa oferece uma sopa em colher. sua avó olha para ela e por um momento imagina-se num espelho: no meu rosto há muita ternura; devo mantê-la até envelhecer. será o modo com que meus netos me reconhecerão.

teletransporte

há uma passagem lenta entre o estar em mim e o fora: as horas.
um corpo a mercê das temperaturas deslocadas
(alterno invernos futuros e primaveras memórias).
atravesso uma porta, mas ainda estou na porta.
vejo pessoas cúbicas, perdendo, aos poucos, a perspectiva.
antecipo a bala, mas me derrota um beijo deixado.

o eixo que me prende aos meus pés são os seus pés.

eu te amo

há um fato do qual me restam poucas dúvidas – porque a dúvida, mais que a desconfiança, faz parte da minha índole: eu te amo.

não sei se este amor faz concessões ou está condicionado a questões contextuais e conceituais. assim como está é um presente do indicativo.

a minha avaliação vem de 2 pontos a considerar.

o primeiro é o medo – sim, este sentimento considero bem para que nunca se torne invisível para mim – tenho medo de que nos afastemos muito, como diria drummond. tenho medo também de que me esqueça com facilidade e tenho medo que não seja feliz o que me faz tomado de momentos de preocupação com seu estado: se está bem, se a vida lhe é boa, a gravidade das inquietudes e solidão e suas conseqüências.

tudo mais  torna sua existência uma grande alegria para mim.

o segundo ponto é conceitual que defino por comparação. todas as afirmações até agora podem ser consideradas um bem gostar – o que acho razoável. bem gosto de muitas pessoas e posso considerar que não as amo, mas também posso amá-las todas só que menos intensamente.

em ambos os casos, comparativamente a intensidade amorosa é maior que os outros. se pensa em bem-gostar, meus sentimentos vão além, então digo que é amor. se pensa em amor, é mais intenso e considerando que não se desloca para uma questão semântica, continuo amando.

escrevo este raciocínio também pelo amor que tenho para com a razão. não é, de forma alguma, uma tentativa de explicar o amor. a razão também tem amores que o próprio amor desconhece.

por isso receba bem as minhas palavras, pensamentos e coração: eu te amo  e amo pensar em suas razões para amar.

lençol

o lençol agitado pela janela,
os vestígios retornam a terra,
meu olhar para dentro continuo
a cama resguardada.

as dobras perdidas em esticadas,
as estampas reneveladas,
prólogo das peles sitiadas,
o verbo sem fôlego.

os corpo cansados são versos.
a forma do lençol, um poema.

 

Nota

uma menina olha…

uma menina olhava com atenção ao carrinho de cachorro quente. um homem sensibilizou-se e foi lhe comprar um lanche. quando ofereceu, ela agradeceu mas disse que estava sem fome, mas que levaria para o irmão e continuou a olhar. o homem perguntou o que tanto olhava. então a menina apontou para as roupas que se sujavam com os recheios que não cabiam no cachorro quente. e disse: “aprendi na escola: abundância”.

josefim

josefim é um porto incomum: não se escoa nada, mas movimenta-se bastante os consertos de embarcações. e talvez fosse bastante comum que uma cidade vivesse de concertos, mas josefim era um exílio: as mulheres vinham aqui consertar seus barcos avariados pelas tempestades e mau humor das marés.

quando completou 18 anos, rodolfo decidiu partir de josefim. sua mãe há muito se fora em barco consertado por ela mesma. lembrava-se muito pouco dela, tudo que lhe restava eram alguns lenços que a maresia levou o cheiro.

para que seu plano desse certo, era necessário aprender o conhecimento dos barcos. e somente as mulheres com seus barcos feridos poderiam lhe dizer como construir um.

naquele momento havia 3 barcos no porto.

o primeiro era de manuela. ela tinha um barco com paredes cheias de mãos de tintas. podia-se ver nos buracos que o recife causara, as várias camadas e cores. quando rodolfo pediu que lhe ensinasse o conhecimento dos barcos, ela riu e disse:

— sei que há culpa aqui de ter paredes tão fracas, cubro com algumas táboas, pinto e continuo. talvez as madeiras.

manuela tampou o buraco, pintou com um resto de tinta antiga e partiu sem mais.

o segundo barco era de andréia.  estava com as velas rasgadas e num canto, ela estava costurando. rodolfo, mais cuidadoso, começou a conversar sobre amenidades. observou o quanto o barco era forte, mas andréia era muito quieta e pouco falava de si. rodolfo percebeu que ela gostou um tanto dele pelo sorriso e ele fez um comentário sobre o vestido. ela se retraiu.

no outro dia, ela havia partido. nas águas havia uma vela rasgada em forma de vestido. rodolfo a imaginou nua em seu barco, mas compreendeu que nunca havia pano que bastasse para sua vela.

o terceiro era de joana. rodolfo perguntou se podia dar uma carona até um lugar onde pudesse aprender sobre engenharia naval. joana o ignorou da primeira vez, mas da segunda rodolfo lhe disse que todos os barcos partiram e continuariam a partir e ele só queria partir também. então joana deixou que ele entrasse e  então se aventuraram no mar, finalmente para chegar.

post-its para carolina

1

café, vestido.
as segundas livres para passear.
anotações no rodapé da agenda;
músicas novas para baixar e ouvir.
lamentos em guitarra preguiçosa;
levemente distorcida.
o desejo de ser distorcido
por alguma alma preguiçosa.

2

a bicicleta te leva para trabalhar;
você leva a bicicleta para olhar.
passa pelas pessoas nas quais se tornou
e umas tantas que deixou ser.
o aslfato abrasivo desgasta os pneus,
mas a cidade, como um espelho,
pergunta: para onde vou?

3

trocar uma vida tv a cabo;
por programas caseiros no rádio de pilha.
lá estão os ruídos familiares
com todas as questões
que não se resolveram nos tempos de estudos.
levar consigo, espírito inquieto,
perguntas solares.

4

as coisas bonitas que vejo em mim,
vejo em você,
mais bonitas.

clarissa querida,

desculpe-me pela demora em escrever. por muito tempo não tive apreço pelas palavras, mas seu bilhete me assobiou verbos.

não vi tantas paisagens aqui na africa, embora todas as vistas sejam paisagem. criei grande desenvoltura com números e fiz alguns amigos, sem querer. acredito que simpatizam com minha sorte. outro dia fui batizado no solo deste continente, acredite, por ter aprovado um micro negócio de geléias de maçã. achei curioso maçãs na africa e a mãe da moça, dona do negócio que felizmente prospera, realizou uma pequena festa de agradecimento.

nunca me faltam geléias de maçã.

desde então, as pessoas tem me sido boas. ou já estavam sendo, mas eu não havia percebido. estou pegando a mania, percebo, de falar do passado com concordâncias de presente do indicativo. as pessoas aqui contam muitas histórias, mas é o ritmo que me atrai. nele se vê as marcas dos tempos que se renovam. aqui não há esperança porque tudo já é.

a noite está fechando meus olhos. volto a escrever quando o papel brilhar um pouco mais.

(em resposta a “qualquer paixão me diverte“)