mestres

pensando na vida, vejo três professoras que formaram meu caráter intelectual – se é que isso existe. a primeira foi no primário. ela soltou um palavrão ao questionar a progressão em ciclos que acabaria com a repetência. a segunda, no colegial, revelou-me a beleza e armadilha da linguagem. a terceira, na universidade, mostrou-me uma bibliografia pouco apreciada pelos acadêmicos, mas com novas ideias empolgantes.

deixei de ser um espírito livre aos poucos para me engajar a felicidade.

 

são paulo

um dia são paulo me pergunto: quem és tu que estás dentro de mim?
respondi: sou tuas entranhas.
ela: por que não sais de mim?
eu: faço visita eterna a todas outras entranhas que me fizeram a condição.
ela: que condição?
eu: a condição de fazer-te visceral.

parabéns, são paulo, cidade dos meus encantos e desencantos.

mensagem de ano novo

agradeço a todos que tornaram o meu ano bom. agradeço àqueles que o fizeram propositalmente e não. aqueles que fizeram bom sem que eu saiba ou que eu saiba mas não fazem ideia que o fizeram assim desejo sorte para nos encontrar, nos reconhecer e agradecer.

peço desculpas a todos para quem criei dificuldades; necessárias ou não. para aqueles que fiz mal, peço perdão que não foi minha intenção. para aqueles que viram intenção; veja como quiser porque provavelmente não me diz respeito.

daqueles que fiz bem, guardo boas lembranças. os bem feitios que pude lembrar guardarei como um presente de nosso encontro. os que não consigo lembrar, envie-me uma mensagem que farei um encontro novo.

para aqueles que não tive tempo, tento nestas linhas enviar uma mensagem de que não os esqueci embora o tempo tenha me vencido. ano que vem penso em novas estratégias para que nos reaproximemos para desenhar novos karmas.

para aqueles que amo, meu passado, meu presente e meu futuro.

a avó de elsa

– que olhos bonitos você tem…
– puxei minha avó.

a avó de elsa não se lembra quem é a avô de elsa. mas elsa lembra de todas as histórias de sua avó. cada marca do tempo em  sua pele traz as sementes do mundo para própria pele de elsa cheia de vontade de aventuras.

a avó de elsa foi a primeira mulher a habilitar-se a motocicleta, mas preferia uma vespa. usou as mãos para ganhar a vida cuidando das dores musculares dos outros. foi roubada de seu noivo e viajou pelo mundo – criou confusão já na confusa espanha e seus estrangeiros.

elsa sabe de tudo isso, mas o que sua avó sabe sobre ela?

elsa oferece uma sopa em colher. sua avó olha para ela e por um momento imagina-se num espelho: no meu rosto há muita ternura; devo mantê-la até envelhecer. será o modo com que meus netos me reconhecerão.

teletransporte

há uma passagem lenta entre o estar em mim e o fora: as horas.
um corpo a mercê das temperaturas deslocadas
(alterno invernos futuros e primaveras memórias).
atravesso uma porta, mas ainda estou na porta.
vejo pessoas cúbicas, perdendo, aos poucos, a perspectiva.
antecipo a bala, mas me derrota um beijo deixado.

o eixo que me prende aos meus pés são os seus pés.

eu te amo

há um fato do qual me restam poucas dúvidas – porque a dúvida, mais que a desconfiança, faz parte da minha índole: eu te amo.

não sei se este amor faz concessões ou está condicionado a questões contextuais e conceituais. assim como está é um presente do indicativo.

a minha avaliação vem de 2 pontos a considerar.

o primeiro é o medo – sim, este sentimento considero bem para que nunca se torne invisível para mim – tenho medo de que nos afastemos muito, como diria drummond. tenho medo também de que me esqueça com facilidade e tenho medo que não seja feliz o que me faz tomado de momentos de preocupação com seu estado: se está bem, se a vida lhe é boa, a gravidade das inquietudes e solidão e suas conseqüências.

tudo mais  torna sua existência uma grande alegria para mim.

o segundo ponto é conceitual que defino por comparação. todas as afirmações até agora podem ser consideradas um bem gostar – o que acho razoável. bem gosto de muitas pessoas e posso considerar que não as amo, mas também posso amá-las todas só que menos intensamente.

em ambos os casos, comparativamente a intensidade amorosa é maior que os outros. se pensa em bem-gostar, meus sentimentos vão além, então digo que é amor. se pensa em amor, é mais intenso e considerando que não se desloca para uma questão semântica, continuo amando.

escrevo este raciocínio também pelo amor que tenho para com a razão. não é, de forma alguma, uma tentativa de explicar o amor. a razão também tem amores que o próprio amor desconhece.

por isso receba bem as minhas palavras, pensamentos e coração: eu te amo  e amo pensar em suas razões para amar.

lençol

o lençol agitado pela janela,
os vestígios retornam a terra,
meu olhar para dentro continuo
a cama resguardada.

as dobras perdidas em esticadas,
as estampas reneveladas,
prólogo das peles sitiadas,
o verbo sem fôlego.

os corpo cansados são versos.
a forma do lençol, um poema.